Em meio à escalada de preços influenciada pela guerra no Oriente Médio e à volatilidade dos combustíveis, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central realiza nesta quarta-feira, dia 29, sua terceira reunião de 2026 para definir o rumo da taxa básica de juros, a Selic. O mercado financeiro, apesar dos efeitos do aumento do petróleo, projeta que o órgão promoverá o segundo corte consecutivo nos juros.
Desde junho de 2025 até março deste ano, a Selic permaneceu em 15% ao ano, o patamar mais alto em quase duas décadas, tendo anteriormente sido fixada em 14,75% ao ano.
A divulgação sobre o novo percentual da taxa Selic está prevista para o início da noite desta quarta-feira. O Copom estará desfalcado, visto que os diretores responsáveis pela Organização do Sistema Financeiro, Renato Gomes, e pela Política Econômica, Paulo Pichetti, tiveram seus mandatos encerrados ao final de 2025. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva ainda não enviou ao Congresso Nacional as indicações para os substitutos dessas funções.
A reunião deste mês também contará com outra ausência. Na terça-feira, dia 28, o Banco Central comunicou o afastamento do diretor de Administração, Rodrigo Teixeira, devido ao falecimento de um familiar em primeiro grau.
Na ata referente à reunião de março, o Copom não sinalizou se manteria o ciclo de cortes da taxa de juros. Com o agravamento do conflito no Oriente Médio, o Banco Central indicou que a direção e o ritmo dos ajustes na Selic seriam definidos gradualmente, considerando a incorporação de novas informações nas análises econômicas ao longo do tempo.
Segundo o boletim Focus mais recente, que compila semanalmente as expectativas de analistas do mercado, a previsão é de que a Selic sofra um decréscimo de 0,25 ponto percentual, estabelecendo-se em 14,5% ao ano.
A trajetória dos índices inflacionários ainda é incerta. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo-15 (IPCA-15), considerado uma prévia da inflação oficial, acelerou para 0,89% em abril, pressionado por aumentos em combustíveis e alimentos. No acumulado dos últimos 12 meses, o IPCA-15 saltou para 4,37%, contra 3,9% registrados em março.
De acordo com o último boletim Focus, a estimativa para a inflação em 2026 subiu para 4,86%. O motivo apontado é o prolongamento do conflito no Oriente Médio, o que pode elevar a inflação acima do limite superior da meta contínua fixada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). A meta oficial é de 3%, com permissão para variações entre 1,5% e 4,5% dentro do intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual.
A Selic, taxa básica de juros do país, serve de referência para as demais taxas praticadas no mercado, sendo central para as negociações de títulos públicos federais promovidas pelo Tesouro Nacional por meio do Sistema Especial de Liquidação e Custódia (Selic). O Banco Central utiliza essa ferramenta para controlar a inflação, realizando operações diárias no mercado aberto, que envolvem compra e venda de títulos públicos, com a finalidade de manter os juros próximos do valor estipulado em cada reunião do Copom.
O aumento da Selic é uma estratégia para conter o excesso de demanda: juros mais elevados tornam o crédito mais caro e incentivam a poupança, o que impacta diretamente os preços de bens e serviços. Entretanto, taxas mais altas também podem restringir o crescimento econômico. Além da Selic, as instituições financeiras consideram fatores como risco de inadimplência, custos administrativos e margem de lucro ao definir os juros finais cobrados dos consumidores.
A diminuição da taxa básica geralmente provoca uma redução dos custos do crédito, estimulando produção e consumo, o que pode impactar positivamente a atividade econômica, mas reduz o efeito do controle inflacionário.
O Copom se reúne a cada 45 dias. O primeiro dia do encontro é destinado a apresentações técnicas que abordam a evolução e as perspectivas das economias brasileira e internacional, além do comportamento dos mercados financeiros. No segundo dia, a diretoria do Banco Central analisa os dados discutidos e decide o novo patamar da Selic.
Desde janeiro de 2025, está em vigor o sistema de meta contínua de inflação. Por essa metodologia, a meta perseguida pelo Banco Central, definida pelo CMN, é de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo, o que fixa o limite inferior em 1,5% e o superior em 4,5%.
No contexto da meta contínua, a apuração do cumprimento ocorre mês a mês, levando em conta a inflação acumulada em 12 meses. Em abril de 2026, por exemplo, será analisado o período compreendido entre maio de 2025 e abril de 2026. No mês seguinte, será observado o acumulado a partir de junho de 2025 e assim sucessivamente, o que elimina a restrição da análise ao índice apenas do fechamento de dezembro de cada ano.
No Relatório de Política Monetária divulgado pelo Banco Central no final de março, a estimativa para o IPCA de 2026 foi reajustada de 3,5% para 3,6%. Contudo, o órgão já indicou que essa previsão poderá ser reavaliada caso o conflito no Oriente Médio persista. O próximo relatório, que substitui o antigo Relatório de Inflação, será publicado ao final de junho.