A brasileira Manal Jaafar e seu esposo, o libanês Ghassan Nader, perderam a vida junto ao filho de 11 anos em decorrência de um bombardeio realizado por Israel no sul do Líbano, no último domingo. O casal havia retornado ao país de origem após viver no Brasil por 12 anos, com o objetivo de proporcionar uma existência mais segura para a família. Eles eram pais de dois meninos, ambos brasileiros; um deles sobreviveu ao ataque e está hospitalizado.
Segundo relatos, a família havia deixado a casa em função dos frequentes ataques, mas retornou à residência após o início de um cessar-fogo. O jornalista libanês Ali Farhat, amigo da família, expressou o impacto que a notícia causou entre os membros da comunidade libanesa, enfatizando que tragédias como essa fazem parte do cotidiano de muitos parentes e amigos na região.
“A gente recebeu a notícia com muito sofrimento e muita tristeza. É essa notícia que a comunidade [libanesa] recebe todos os dias sobre familiares, parentes e amigos. O Líbano já perdeu mais de 2,5 mil vítimas. A grande maioria são civis, não tem nada a ver com essa guerra, não tem culpa nenhuma”, afirmou Ali Farhat.
Ali Farhat destacou que o episódio trouxe decepção para a comunidade e evidencia o cenário vivido por inúmeros civis afetados diretamente pelos confrontos. O jornalista informou que a família Jaafar/Nader fez parte da comunidade libanesa em Foz do Iguaçu, no Paraná, onde era bastante estimada. Em sua última conversa com Ghassan antes da mudança, foi compartilhado o desejo de consolidar uma vida tranquila no Líbano, aproveitando a renda obtida com o comércio no Brasil para dedicar mais tempo à família, à educação dos filhos e à convivência social.
“O plano dele era fazer uma vida estável no Líbano, com a renda que ele tinha conseguido [trabalhando no comércio aqui no Brasil]. Ele queria cuidar mais da vida dele e da família dele, queria fazer algo bem leve para conseguir dar mais tempo para os estudos e para a vida social”, contou Farhat, que vive há 25 anos no Brasil e integra a comunidade libanesa em Foz do Iguaçu.
Farhat ainda explicou que Ghassan era empresário, ativista humanitário e participava ativamente de eventos sociais, além de ser reconhecido por sua atuação intelectual e cultural. O jornalista lembrou também que Ghassan escreveu um livro sobre a crise econômica global e havia sido entrevistado por ele na época em que residiam no Brasil, entre 1998 e 2010.
Ele descreveu o amigo como uma pessoa culta e respeitada, com grande envolvimento nas áreas culturais e econômicas, sempre valorizado pela comunidade local.
O território libanês tem sido constantemente atingido por ataques de Israel, em meio à ofensiva coordenada por Estados Unidos e Israel contra países da região. O Ministério das Relações Exteriores do Brasil confirmou que a família morreu após um dos bombardeios na residência localizada no distrito de Bint Jeil, ao sul do país.
Ali Farhat classificou os ataques como um massacre, alegando que não há distinção entre áreas civis e militares nos ataques israelenses, que atingem inclusive mesquitas, cemitérios e residências. Ele afirmou que nenhum local é considerado seguro, seja no sul do Líbano ou na capital Beirute, destacando que a maioria das vítimas, conforme dados do Ministério da Saúde do Líbano, são civis.
“Israel está bombardeando a geografia do Líbano, a memória do Líbano, mesquitas, cemitérios, casas civis. Não tem nenhum ponto protegido no sul do Líbano, tampouco na capital Beirute. Israel está tentando praticar o genocídio parecido com o que praticou na Faixa de Gaza”, ressaltou Farhat.
O jornalista relatou que sua família, assim como a de Ghassan e Manal, vivia no Brasil, mas mantém parentes no Líbano, situação comum entre a comunidade libanesa no país.
Melina Manasseh, integrante da Federação Árabe da Palestina no Brasil e da comunidade libanesa, comentou que o tipo de ocupação israelense atualmente promovida no Líbano se assemelha ao que ocorre na Palestina. Ela expressou pesar diante da morte da família de brasileiros e reforçou críticas à política expansionista de Israel.
“Fiquei muito triste em saber que essa família com brasileiros foi ceifada, assim como tantas outras, dada a política bélica expansionista de Israel.”
“Não é a primeira vez que um brasileiro é morto pelas forças da ocupação. Israel nunca cumpriu uma única resolução da ONU quanto à Palestina e ocupou de forma militar o sul do Líbano por 18 anos. A ocupação militar não é a mesma que hoje se preconiza. Essa ocupação de hoje é a mesma que se dá na Palestina, ocupação de assentamento”, disse.
Melina, que possui familiares em Beirute e no norte do Líbano, observou que, apesar da gravidade do ocorrido, a morte dos dois brasileiros não provocou grande mobilização no Brasil. Ela destacou que tanto libaneses quanto palestinos mantêm uma postura otimista e resiliente, acreditando que o cenário adverso será superado. Ela acrescentou, contudo, que a diáspora libanesa no Brasil, composta por cerca de 9 milhões de descendentes, não possui organização suficiente para promover resposta coletiva mais efetiva diante desses episódios.