Pelo menos 40 dentre 62 empresários identificados pela Comissão Nacional da Verdade (CNV) como apoiadores do regime militar brasileiro descendiam diretamente de famílias envolvidas com a escravidão no país. Essa constatação foi obtida por meio de pesquisa genealógica que recorreu a certidões de nascimento, óbito, livros de batismo e bases como o site Family Search, mantido pela Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.
O relatório final da CNV, no capítulo dedicado à colaboração civil com o regime, detalhou empresas que apoiaram financeiramente e com outros recursos a ditadura militar. Dentre os nomes cujas árvores genealógicas puderam ser reconstruídas pelos pesquisadores, estão representantes de famílias conhecidas, como Guinle de Paula Machado, antiga proprietária do Porto de Santos; Batista Figueiredo, linhagem do último presidente militar e de um ex-vice-presidente da Bolsa de Mercadorias de São Paulo; além das famílias Beltrão, de Pernambuco, com Hélio Beltrão, executivo do Grupo Ultra e ex-ministro do Planejamento; e Vidigal, controladora do Banco Mercantil e da Cobrasma, Companhia Brasileira de Material Ferroviário.
Segundo Ricardo Oliveira, coordenador do Núcleo de Estudos Paranaenses e estudioso da genealogia do poder, a elite dominante brasileira mantém raízes profundas desde o período colonial em diferentes regiões do país.
“O que nós observamos é que a classe dominante tradicional no Brasil tem um núcleo duro desde o período colonial em todas as regiões. Quando a gente volta algumas gerações, às vezes um avô ou bisavô, de quem nasceu em 1950, você já está no senhoriato escravista das suas regiões.”
A análise considerou apenas aqueles empresários cujos ancestrais puderam ser confirmados mediante documentação oficial. Entre os exemplos, a família Vidigal remonta a um anúncio de compra de escravos publicado em 1853 por Antônio Pedro Vidigal, avô de Gastão Eduardo de Bueno Vidigal, fundador do Banco Mercantil e da Cobrasma.
O professor Edson Teles, da Unifesp, afirma que o modelo econômico da ditadura militar se fundamentou no princípio da extração, o que remete ao sistema escravista, não apenas dos recursos naturais, mas também do trabalho humano.
“Extrair é o verbo fundamental do modelo econômico da ditadura. Extrair como ação fundamental e, por muitas vezes, quase que exclusiva.”
O docente explica que, tal qual no passado colonial, houve extração de riquezas naturais e do trabalho, com violações diretas ou indiretas dos direitos dos trabalhadores. Ele liderou o grupo que realizou o estudo mais amplo sobre os vínculos entre empresas e o regime militar, revelando que a convergência entre poder econômico e repressão estatal mirava especialmente as organizações de trabalhadores.
“A relação mais íntima entre empresas e ditadura se deu justamente no ataque à organização dos trabalhadores. Logo que se deu o golpe, no mês de abril de 1964, 20 mil pessoas foram presas em um mês. É muita coisa. A grande maioria, trabalhadores sindicalizados.”
O professor Marco Antônio Rocha, do Instituto de Economia da Unicamp, detalha que, dois anos após o golpe de 1964, o salário mínimo teve seu poder de compra reduzido em cerca de 50%, devido à modificação da política de indexação, o que deixou o salário defasado diante da inflação elevada.
Além disso, dados do IBGE mostram que a concentração de renda se intensificou nesse período: em 1960, os 5% mais ricos detinham 28% da renda nacional; em 1972, essa fatia aumentou para quase 40%.
A continuidade das mesmas famílias no topo do poder por séculos evidencia a dificuldade de mobilidade social no Brasil. De acordo com a OCDE, uma pessoa nascida em situação de pobreza no país precisaria de nove gerações, ou cerca de 300 anos, para alcançar a classe média. O Brasil está entre os países com menor mobilidade social, ao lado de Colômbia e África do Sul.
“Para entender o Brasil, para entender a nossa grande desigualdade social, para entender a violência simbólica, social, política e real, a gente precisa entender essas famílias.”
A família Bueno Vidigal foi analisada por sua influência política e econômica durante a ditadura militar, atuação em múltiplos setores da economia (indústria, serviços e sistema financeiro) e presença em diferentes frentes de apoio ao regime, desde o golpe até o financiamento da repressão. No início do século XX, Gastão Vidigal fundou a Cobrasma, dedicada à produção de trilhos e trens, e o Banco Mercantil, que já foi o maior banco privado do Brasil.
O controle das empresas passou por gerações: a Cobrasma foi administrada pelo filho Luís Eulálio Bueno Vidigal e depois pelo neto, Luís Eulálio Bueno Vidigal Filho. O Banco Mercantil permaneceu sob a presidência de Gastão Eduardo de Bueno Vidigal até sua morte, em 2001, quando a instituição foi vendida ao Bradesco.
Registros do Ministério do Trabalho evidenciam que os operários da Cobrasma enfrentavam condições similares à escravidão. Segundo a historiadora e professora da Unifesp Cláudia Moraes de Souza, a empresa, apesar de seu porte, mantinha instalações precárias, sem sanitários suficientes, refeitórios ou fornecimento de água potável e equipamentos de segurança, levando os trabalhadores a almoçarem na calçada com suas marmitas. A ausência de itens mínimos de higiene e proteção era constante.
“Não havia sanitários suficientes para o número de trabalhadores, não havia refeitório, o trabalhador, na hora do almoço, saía para a calçada e almoçava com a marmita no chão. Não havia material de segurança, água filtrada ou pelo menos água, para se beber durante o expediente. Então, questões mínimas, ligadas à higiene e à segurança do trabalhador.”
Neste contexto, a Cobrasma foi palco de uma das maiores greves operárias do país durante o regime militar: a greve de Osasco, em 1968. Nessa ocasião, o Exército foi chamado pelos empresários para reprimir o movimento dentro da fábrica, de acordo com a professora Cláudia Moraes de Souza.
“É na greve que a gente enxerga claramente, os empresários chamando Exército brasileiro para atuar como repressor dentro da fábrica.”
A repressão resultou na prisão de cerca de 400 trabalhadores. O movimento operário é tido como um dos fatores que levaram à publicação do Ato Institucional número 5 (AI-5), cinco meses após a paralisação, que determinou o fechamento do Congresso Nacional, cassação de mandatos parlamentares, censura à imprensa e proibição da concessão de habeas corpus.
Após o AI-5, foi criada a Operação Bandeirantes (OBAN), embrião dos DOI-CODIs, unidades de repressão que funcionaram em dez capitais a partir de 1970. Tanto a OBAN quanto os DOI-CODIs foram financiados por empresas nacionais e multinacionais. Entre os sócios financiadores esteve o Banco Mercantil, controlado por Gastão Eduardo de Bueno Vidigal.
O jornalista Ivan Seixas, que foi preso e torturado em São Paulo junto com o pai, Joaquim Seixas, relatou sobre o funcionamento de um esquema de recompensas para a captura de opositores do regime, mantido em parceria entre empresários e militares.
“Fizeram uma parceria com o empresariado para fazer uma caixinha de premiação. Cada um que era capturado tinha um valor a cabeça. O Capitão Carlos Lamarca, quando esteve na minha casa, a cabeça dele valia 750 mil dólares. Um ano depois, quando foi assassinado, valia um milhão e meio de dólares.”
Ivan Seixas contou ainda que sua própria detenção foi premiada, recebendo a informação de que um carcereiro ganhou 300 dólares pela sua prisão. Segundo ele, este sistema proporcionou suporte aos militares de linha-dura, fortalecendo e prolongando a ditadura.
Além disso, a família Bueno Vidigal liderou o Grupo Permanente de Mobilização Industrial (GPMI), responsável por propor adaptações das indústrias para produzir materiais militares. A Cobrasma teria transformado veículos da Polícia Militar em carros blindados para conter manifestações.
Como contrapartida ao apoio ao regime, empresários recebiam benefícios como isenções fiscais, contratos governamentais e empréstimos de grande valor. Em seu auge, a Cobrasma chegou a registrar faturamento anual próximo a 470 milhões de dólares.
Segundo Edson Teles, esses benefícios eram viabilizados principalmente por bancos estatais, como o BNDE (atual BNDES), que concedia empréstimos com condições especiais em situações como a ocupação de territórios indígenas com atuação conjunta de polícia militar, forças paramilitares e empresas.
Gastão Vidigal nasceu em 1889, em São Paulo, vindo de família tradicional do Nordeste e casado com Maria Amélia Pontes Bueno, descendente de uma linhagem paulista histórica, os Buenos. Pesquisas nos jornais de Sergipe do século XIX mostram anúncio de compra de escravo por Antônio Pedro Vidigal, avô de Gastão Vidigal, em 1853.
Outros registros apontam práticas semelhantes, como o caso do jornal "O Libertador", de 1882, que detalha a dificuldade de uma mulher para comprar a liberdade da filha e do neto, já nascido livre, sendo o preço da alforria superfaturado por avaliadores, incluindo um membro da família Vidigal.
Pelo lado materno, os Bueno também mantinham vínculos com a escravidão. Augusto Xavier Bueno de Andrade, avô de Maria Amélia, ofereceu como garantia de empréstimo ao Banco do Brasil uma fazenda de café em Campinas, incluindo 75 pessoas escravizadas, conforme pesquisa sobre escravos hipotecados.
Hoje, o nome Gastão Vidigal está presente em diferentes localidades do país, batizando avenidas, ruas, travessas, praças, um aeroporto e até uma cidade no interior de São Paulo.
De acordo com o professor José Marciano Monteiro, da Universidade Federal de Campina Grande, esses espaços denominados pelas elites funcionam como marcos de memória que reforçam as desigualdades.
“As disputas políticas não se dão tão somente entre os vivos. Elas também se dão entre os mortos, quando se disputam as memórias. Isso alimenta o capital simbólico. Imaginemos o que é você chegar em determinado lugar e dizer assim: esta avenida é em homenagem ao meu bisavô. Isto aciona toda uma rede de contatos, de prestígio, de status do ponto de vista do imaginário e, do ponto de vista da representação que é totalmente diferente do sujeito que vai disputar e ele não tem referências.”
O docente lembra que no sistema escravocrata era justamente a memória dos antepassados dos escravizados que se buscava eliminar, privando-os de referências históricas.
A Cobrasma encerrou suas atividades em 1998. Gastão Eduardo de Bueno Vidigal, ex-presidente do Banco Mercantil, faleceu em 2001, aos 82 anos, sendo considerado um dos homens mais ricos do Brasil. Em 2019, um novo banco da família, o Banco Paulista, fundado por Álvaro Augusto Vidigal, sobrinho de Gastão Vidigal, foi alvo de investigação da Operação Lava Jato, acusado de lavar 48 milhões de reais para a Odebrecht.
A assessoria de imprensa do Banco Paulista foi procurada para comentar sobre a origem escravista dos recursos familiares, além de questionamentos sobre eventual revisão da posição de integrantes da família diante do apoio à ditadura e sobre as acusações da Operação Lava Jato. Em resposta, informou apenas que Guti Vidigal, presidente do banco, não é herdeiro direto do financiador da OBAN e não tem relação com a Cobrasma.
Questionamentos similares foram encaminhados à direção da Cobrasma e a Luís Eulálio Vidigal, incluindo perguntas sobre a ocupação militar da fábrica em 1968, o crescimento da empresa durante o regime militar e a desativação das atividades após a redemocratização. Não houve resposta para nenhuma das questões apresentadas.