Em Hannover, na Alemanha, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reuniu com o chanceler federal alemão, Friedrich Merz, em 20 de abril de 2026. Este foi o terceiro encontro entre ambos desde 2023. Durante a visita oficial à Alemanha, Lula participou da abertura da Hannover Messe, reconhecida como a maior feira industrial do planeta, que destacou o Brasil nesta edição. No evento, Lula também conversou com empresários dos dois países e ressaltou as oportunidades brasileiras no campo dos biocombustíveis.
Logo após a reunião bilateral, que resultou em acordos de cooperação em diversas áreas, os dois chefes de Estado concederam entrevista coletiva. Ambos abordaram a atual conjuntura de incerteza global provocada pela guerra no Oriente Médio e comentaram ameaças de intervenção militar em Cuba, baseadas em declarações recentes do presidente norte-americano Donald Trump. Lula reiterou que não vê justificativa para o conflito vigente naquela região e criticou a inação da Organização das Nações Unidas (ONU) na promoção de soluções diplomáticas para restaurar a estabilidade mundial.
"A prevalência das forças sobre o direito é a mais grave ameaça à paz e à segurança internacional. Estamos profundamente preocupados com os riscos da retomada do conflito no Irã e da escalada no Líbano. A sobrevivência do Estado Palestino e do seu povo segue ameaçada", afirmou Lula.
O presidente do Brasil também mencionou o conflito na Ucrânia, ressaltando que a paz desejada está cada vez mais distante.
"Entre a ação dos que provocam guerra e a omissão dos que preferem se calar, a ONU está mais uma vez paralisada. Brasil e Alemanha defendem há décadas uma reforma que recupere a legitimidade do Conselho de Segurança", disse Lula.
Friedrich Merz, ao responder aos questionamentos da imprensa, informou que solicitou uma reunião extraordinária na ONU para discutir propostas de medidas. Merz lamentou o novo fechamento do Estreito de Ormuz, no Irã, e apontou os efeitos econômicos da guerra transcendem a região do Oriente Médio.
"A reabertura do Estreito de Ormuz tinha sido anunciada e feita, e depois fecharam de novo. Por isso, os preços [do petróleo] aumentaram de novo. Nosso apelo vai para o Irã, de cessar-fogo. Nosso apelo vai também para os EUA para que procurem soluções diplomáticas. As implicações e consequências da guerra não atingem apenas o Oriente Médio, mas pode levar a uma desestabilização política", declarou Merz.
Segundo o chanceler alemão, a estabilização energética global depende do fim imediato dos confrontos.
Durante o pronunciamento conjunto, Friedrich Merz declarou que não há qualquer amparo legal para uma intervenção militar em Cuba por parte de outros países. Ele afirmou não identificar riscos a terceiros que justifiquem tal ação e reiterou a defesa por soluções diplomáticas.
"Não vemos que exista algum tipo de perigo para países terceiros, então não sei porque seria necessário haver uma intervenção", afirmou o chanceler. "Poder se defender não quer dizer poder interferir em outros países que têm sistemas políticos que não nos agradam", acrescentou Merz.
Lula reforçou sua oposição a intervenções unilaterais, tanto em Cuba quanto em outras regiões como Venezuela, Ucrânia, Irã e Faixa de Gaza.
"Sou contra a falta de respeito à integridade territorial das nações. Eu sou contra qualquer país do mundo se meter a ter ingerência política sobre como uma sociedade deve se organizar ou não", declarou Lula.
O presidente brasileiro também condenou o bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos a Cuba, vigente há quase sete décadas. Para Lula, a adoção da lei do mais forte já se mostrou ineficaz em experiências anteriores da história mundial.
No pronunciamento à imprensa, ambos os líderes celebraram a aprovação do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, cuja aplicação provisória terá início em maio, conforme anunciado pelos governos. Merz ressaltou o papel do Brasil como defensor do tratado e enfatizou que a entrada em vigor impulsionará parcerias nas áreas de tecnologia, inteligência artificial, economia circular, agricultura e energia.
Lula, por sua vez, afirmou que a efetivação do acordo permitirá uma colaboração ampla e integrada, indo além do livre comércio e contemplando valores como proteção ao trabalho, direitos humanos e respeito ao meio ambiente. O presidente brasileiro, entretanto, fez críticas a mecanismos europeus de cálculo de carbono que, segundo ele, não consideram o baixo nível de emissões do setor produtivo nacional, fundamentado em fontes renováveis.
Para Lula, o equilíbrio nas concessões é condição essencial para a sustentabilidade do acordo. Ele apontou que diversas medidas adotadas pela União Europeia podem comprometer tal equilíbrio. Segundo Lula, políticas de descarbonização, preservação ambiental e desenvolvimento industrial são legítimas, mas os critérios precisam ser compatíveis com regras multilaterais e refletir a realidade.
Durante a coletiva, Lula detalhou que Brasil e Alemanha assinaram acordos de cooperação em áreas como defesa, inteligência artificial, tecnologias quânticas, infraestrutura, economia circular, eficiência energética, bioeconomia, pesquisa oceânica e estudos climáticos.
A Alemanha, atualmente a terceira maior economia mundial, ocupa a quarta posição entre os principais parceiros comerciais do Brasil, com uma movimentação anual de aproximadamente 21 bilhões de dólares em bens e serviços (dados de 2025). O país europeu também se destaca como um dos maiores investidores estrangeiros no Brasil, acumulando um estoque superior a 40 bilhões de dólares.
Friedrich Merz manifestou interesse do governo alemão em expandir a cooperação no segmento de minerais críticos, recursos essenciais para tecnologias modernas, defesa e transição energética, como baterias, painéis solares e turbinas eólicas. O abastecimento desses elementos enfrenta riscos de escassez e possível dependência de poucos fornecedores globais; o Brasil figura entre os países com maiores reservas dessas matérias-primas.
"Estamos aprofundando nossa relação na área de matéria-prima crítica e isso é uma base central para desenvolvermos as tecnologias do futuro", declarou Merz.
Lula destacou que o Brasil não pretende se limitar à exportação de minerais, mas busca atrair cadeias produtivas de processamento para o país, visando agregar valor, avançar em tecnologia e não atuar apenas como fornecedor de commodities.
"Nossas reservas também nos tornam atores incontornáveis no debate sobre minerais críticos. Queremos atrair cadeias de processamento para o território brasileiro, sem fazer exportações excludentes. A colaboração em setores intensivos em tecnologia é uma prioridade para um país que não quer se limitar a ser um mero exportador de commodities".
No segmento de biocombustíveis, ambos os líderes ressaltaram o potencial de colaboração, especialmente no contexto da descarbonização do transporte. Lula enfatizou que a diversificação energética é fundamental para a segurança global, citando a recente alta dos preços do petróleo como exemplo da necessidade de adoção dos biocombustíveis. O presidente afirmou que a tecnologia nacional permite a produção de etanol e biodiesel sem comprometer a produção de alimentos ou áreas florestais.
"Não existe segurança energética sem diversificação. A recente alta nos preços do petróleo mostra que está mais do que na hora da Europa superar sua resistência ideológica aos biocombustíveis. Eles são uma opção barata, confiável e eficiente para descarbonizar o setor de transporte. Com o conhecimento acumulado ao longo de cinco décadas, o Brasil é capaz de produzir etanol e biodiesel sem comprometer a produção de alimentos e as áreas de florestas", declarou Lula.
O chanceler alemão acrescentou que há interesse em investir em combustíveis renováveis como estratégia para diversificar as fontes energéticas. Ele mencionou como exemplo um caminhão movido a biocombustível presente no estande da feira de Hannover, destacando o avanço da tecnologia no Brasil e o potencial de aprendizado mútuo entre os países.