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Filmes de Brasil e Paraguai concorrem ao Prêmio Platino com foco na democracia

Quatro documentários disputam o principal prêmio ibero-americano, com destaque para temas políticos e históricos.

02/05/2026 às 14:44
Por: Redação

O Prêmio Platino, que homenageia produções do cinema ibero-americano, chega à sua 13ª edição destacando dois documentários que abordam os desafios enfrentados pela democracia na América Latina. O anúncio do vencedor está agendado para a cerimônia no México, marcada para o próximo sábado, dia 9.

 

Dentre os indicados, o filme brasileiro Apocalipse nos Trópicos, dirigido por Petra Costa, explora o papel da religião evangélica no cenário político nacional. A produção investiga a trajetória do país sob o governo de Jair Bolsonaro, cobrindo o período de 2018 a 2022, incluindo a tentativa mal sucedida de golpe em janeiro de 2023. O documentário também se debruça sobre o aumento da representatividade da fé evangélica no Brasil.

 

Petra Costa, que já foi indicada ao Emmy Awards pela direção de documentário, conduz uma análise aprofundada sobre a influência dos líderes evangélicos nos destinos do Brasil.

 

O documentário paraguaio Sob as bandeiras, o Sol, comandado por Juanjo Pereira, volta-se para a ditadura de Alfredo Stroessner, que governou o Paraguai de 1954 a 1989. Valendo-se de registros raros, o longa reconstrói os anos do regime considerado o mais longo do continente, que fez pelo menos 20 mil vítimas e resultou em 420 mortos ou desaparecidos, segundo a Comissão da Verdade e Justiça paraguaia.

 

A montagem do filme utilizou cinejornais exibidos em cinemas e filmes de propaganda estatal, já que parte do acervo audiovisual do país foi destruída para esconder crimes cometidos durante o período ditatorial. O documentário já recebeu o prêmio do júri no Festival de Cinema de Berlim, em 2025.

 

Apoio midiático ao regime é tema central de Sob as bandeiras, o Sol, que dispensa entrevistas e narração, apostando na força das imagens históricas. O professor Paulo Renato da Silva, da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), um dos principais estudiosos do tema, considera que o domínio dos meios de comunicação foi fundamental para a longevidade da ditadura:

 

“Ter o controle dos meios era decisivo, tanto para fazer a propaganda quanto para evitar as críticas e deixar um legado”, avaliou o professor. “No Paraguai, houve uso de jornais e do rádio para conquistar o apoio e buscar ‘consenso’”, citou o pesquisador.

 

Além de discutir o papel dos meios de comunicação, o filme analisa como as imagens oficiais influenciaram a identidade nacional paraguaia.

 

Cooperação entre regimes e impactos atuais

 

A produção também aborda a participação do Paraguai na Operação Condor, ação coordenada entre ditaduras latino-americanas com a colaboração do Brasil e apoio dos Estados Unidos. Segundo o pesquisador da Unila, o objetivo era perseguir opositores e realizar trocas de prisioneiros.

 

A aliança entre Brasil e Paraguai não se limitou à repressão. Foram realizadas obras conjuntas, como a construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu, em condições desfavoráveis ao Paraguai. Para o professor Paulo Renato, essa colaboração ajudou a projetar uma "imagem de desenvolvimento e progresso" para o país vizinho.

 

O filme também não deixa de mencionar a origem alemã de Stroessner e suas relações com criminosos nazistas, incluindo o médico Josef Mengele.

 

Atualmente, o Paraguai permanece governado pelo Partido Colorado, que desde 1947 só foi substituído uma vez, com a eleição do ex-bispo Fernando Lugo em 2008. Lugo, no entanto, perdeu o cargo após um julgamento político tumultuado, que resultou no retorno do Partido Colorado ao poder.

 

Outros finalistas da categoria

 

Também concorrem ao prêmio máximo de documentário no âmbito ibero-americano os filmes Tardes de Solidão, dirigido pelo catalão Albert Serra, e Flores para Antônio, de Elena Molina e Isaki Lacuesta.

 

Tardes de Solidão é uma coprodução entre Espanha e Portugal, premiada no Goya e em outras competições do cinema espanhol. O documentário acompanha o toureiro peruano Andrés Roca Rey, apresentando de maneira realista o universo das touradas, marcado por sangue, disputa e glória, o que gerou controvérsia entre ambientalistas e até mesmo insatisfação do próprio protagonista, mas conquistou a crítica especializada.

 

Flores para Antônio retrata a busca de uma filha para compreender a história de seu pai, o cantor e compositor Antonio Flores, falecido quando ela tinha apenas oito anos. A filha, Alba Flores, que ficou conhecida do público brasileiro por interpretar a personagem Nairóbi na série espanhola Casa de Papel (2017), conduz a narrativa mergulhando em suas memórias e vivências pessoais.

 

As quatro produções refletem diferentes aspectos sociais, culturais e históricos de seus países de origem, ressaltando a pluralidade temática presente na premiação deste ano.

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