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Lula cobra coerência de progressistas em evento global na Espanha

Presidente discursa para mais de 5 mil em Barcelona e critica neoliberalismo e ascensão da extrema-direita.

18/04/2026 às 20:24
Por: Redação

Em um palco global na Espanha, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou da primeira edição da Mobilização Progressista Global (MPG), na tarde deste sábado (18), na cidade de Barcelona. O evento congregou ativistas e organizações de esquerda de diversas partes do mundo, com o propósito de defender a democracia com justiça social e combater o avanço das forças autoritárias de extrema-direita.

 

Dirigindo-se a uma audiência de mais de 5 mil pessoas, que incluía outros chefes de Estado, Lula iniciou seu discurso enfatizando que ninguém deve se envergonhar de se identificar como progressista ou de esquerda no cenário mundial atual.

 

"Ninguém precisa ter medo, no mundo democrático, de ser o que é, de falar o que precisa falar, desde que se respeite as regras do jogo democrático estabelecidas pela própria sociedade".

 

Ao analisar as conquistas do campo progressista para grupos sociais como trabalhadores, mulheres, a população negra e a comunidade LGBTQIA+, o presidente ponderou que a esquerda falhou em superar o pensamento econômico dominante, o que abriu espaço para o crescimento de forças reacionárias na sociedade.

 

"O projeto neoliberal prometeu prosperidade e entregou fome, desigualdade e insegurança. Provocou crise atrás de crise. Ainda sim, nós sucumbimos à ortodoxia. Temos sido os gerentes das mazelas do neoliberalismo. Governos de esquerda ganham as eleições com discurso de esquerda e praticam austeridade. Abrem mão de políticas públicas em nome da governabilidade. Nós nos tornamos o sistema. Por isso, não surpreende agora que o outro lado se apresente agora como antissistema", afirmou Lula.

 

Lula ressaltou que a coerência deve ser o primeiro mandamento dos progressistas brasileiros.

 

"Não podemos nos eleger com um programa e implementar outro. Não podemos trair a confiança do povo, mesmo que boa parte da população não se veja como progressista. Ela quer o que nós propomos. Ela quer comer bem, morar bem, escolas de qualidade, hospitais de qualidade, uma política climática séria e responsável, uma política de meio ambiente à altura. Ela quer um mundo limpo e saudável, um trabalho digno, com jornada de trabalho equilibrada, um salário que permite uma vida confortável", continuou.

 

O presidente explicou que a extrema-direita soube aproveitar o descontentamento gerado pelas promessas não cumpridas do neoliberalismo.

 

"Canalizou a frustração das pessoas inventando mentiras e mais mentiras, falando das mulheres, dos negros, da população LGBTQIA+, dos imigrantes, ou seja, todas as pessoas mais necessitadas, que passaram a ser vítimas do discurso de ódio", completou.

 

Previamente, ainda em Barcelona, o presidente participou da quarta edição do Fórum Democracia Sempre, ao lado de outros líderes internacionais. Esta iniciativa foi lançada em 2024 e envolve os governos de Brasil, Espanha, Colômbia, Chile e Uruguai. A reunião em Barcelona, organizada pelo presidente do Governo da Espanha, Pedro Sánchez, também contou com a presença dos presidentes Yamandú Orsi (Uruguai), Gustavo Petro (Colômbia), Cyril Ramaphosa (África do Sul), Claudia Sheinbaum (México), além do ex-presidente do Chile, Gabriel Boric.

 

Lula afirmou à plateia de ativistas progressistas que é fundamental identificar os verdadeiros responsáveis pela crise socioeconômica atual: os poucos bilionários que concentram a maior parte da riqueza global. Ele argumentou que esses indivíduos "querem que as pessoas acreditem que qualquer um pode chegar lá. Alimentam a falácia da meritocracia, mas chutam a escada para que outros não tenham a mesma oportunidade de subir. Pagam menos impostos ou nada, exploram o trabalhador, destroem a natureza, manipulam os algoritmos. A desigualdade não é um fato, é uma escolha política. O que faz de nós progressistas, é escolher a igualdade. Nosso lema deve ser sempre estar ao lado do povo".

 

Crítica à geopolítica e aos gastos militares

 

Lula reiterou sua crítica aos líderes de países com assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas, referindo-se a eles como "senhores da guerra". Ele condenou os bilhões de dólares empregados em armamentos, recursos que, em sua visão, poderiam ser usados para erradicar a fome, solucionar a crise energética e garantir acesso à saúde para toda a população mundial.

 

O presidente salientou que o Sul Global arca com as consequências de conflitos que não provocou e de mudanças climáticas pelas quais não é responsável. Segundo ele, essa região é tratada como "quintal das grandes potências", sufocada por tarifas abusivas e dívidas impagáveis, e vista novamente como mera fornecedora de matérias-primas. Lula defendeu que a postura progressista no cenário internacional envolve "defender um multilateralismo reformado, defender que a paz faça prevalência sobre a força, é combate a fome e proteger o meio ambiente, é restituir a credibilidade da ONU, que foi corroída pela irresponsabilidade dos membros permanentes".

 

Em outro segmento de sua fala, Lula alertou que a ameaça representada pela extrema-direita não se limita à retórica, sendo uma realidade concreta. Ele citou o caso do Brasil, onde essa força política "planejou um golpe de Estado. Orquestrou uma trama que previa tanques na rua e assassinatos do presidente eleito, do vice-presidente e do presidente da Justiça Eleitoral". O presidente mencionou que o papa Leão XIV já havia afirmado que a democracia corre o risco de se tornar "uma máscara para o domínio das elites econômicas e tecnológicas". Para Lula, o papel dos progressistas é "desmascarar essas forças, desmascarar aqueles que dizem estar do lado do povo, mas governam para os mais ricos".

 

O chefe de Estado brasileiro sublinhou, ainda, que a democracia não é um ponto de chegada, mas um processo que deve ser reafirmado diariamente, por meio de melhorias efetivas na vida das pessoas, para que não perca sua credibilidade.

 

"Não é democracia quando um pai não sabe de onde tirar seu próximo de comida. Não há democracia quando um neto perde seu avô na fila de um hospital. Não há democracia quando uma mãe passa horas em um ônibus lotado e não consegue dar um beijo de boa noite nos seus filhos. Não há democracia quando alguém é discriminado pela cor de sua pele, quando uma mulher morre apenas pelo fato de ser mulher. Temos que substituir o desalento pelo sonho, o ódio pela esperança", afirmou.

 

Próximos compromissos de Lula na Europa

 

Após o encerramento dos compromissos na Espanha, o presidente Lula seguirá para a Alemanha neste domingo (19). No país europeu, ele participará da Hannover Messe, considerada a maior feira de inovação e tecnologia industrial do mundo, que nesta edição terá o Brasil como país homenageado. Ainda na Alemanha, o presidente brasileiro tem agendado um encontro com o chanceler Friedrich Merz.

 

A viagem de Lula pela Europa será concluída no dia 21, com uma breve visita de Estado a Portugal. Em Lisboa, o presidente brasileiro se reunirá com o primeiro-ministro Luís Montenegro e com o presidente António José Seguro.

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