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Relatório aponta crescimento da desinformação por IA e alerta para riscos à democracia

Levantamento mostra que 81,2% dos casos de notícias falsas por IA ocorreram desde 2024 e alerta para o impacto em processos eleitorais.

16/04/2026 às 15:49
Por: Redação

Rostos familiares e vozes reconhecíveis aliados a conteúdos duvidosos trazem uma nova dinâmica à propagação de notícias falsas, impulsionada por ferramentas de inteligência artificial (IA). A presença dessa tecnologia obriga a população a adotar uma postura mais cuidadosa diante das informações recebidas em múltiplos canais. Profissionais dedicados à checagem de fatos destacam a necessidade de cautela contínua frente ao avanço dessas ferramentas.

 

Um estudo recente, elaborado após a análise de 1.294 verificações profissionais em pelo menos dez idiomas, revela a magnitude dessa nova realidade. O levantamento, intitulado "O impacto da IA no Fact-checking Global" e conduzido pela Agência Lupa, mostra que a tecnologia está transformando o cenário da desinformação em diversas partes do mundo.

 

Mudança no padrão da desinformação digital

O relatório indica que 81,2% dos episódios de notícias falsas relacionadas a tecnologias de IA ocorreram nos dois anos mais recentes, entre janeiro de 2024 e março de 2026. Os temas mais recorrentes nesses casos foram eleições, conflitos armados e tentativas de golpe.

 

A gerente de inovação e formação da Agência Lupa, Cristina Tardáguila, afirma que a IA vem transformando o ambiente da desinformação em escala global. Ela observa que, na maioria dos casos avaliados pelos especialistas, os conteúdos checados recebem o selo de falso ou enganoso. Cristina ressalta que são raros os usos da tecnologia para promover informações verdadeiras.

 

“A imensa maioria das peças que são analisadas pelos checadores acaba levando a etiqueta de falso ou de enganoso. A IA dificilmente tem sido feita para impulsionar conteúdos verdadeiros”, disse em entrevista à Agência Brasil.


 

Formatos variados e impacto em períodos eleitorais

A fundadora da Agência Lupa destaca que a desinformação gerada por IA atinge o público por meio de diferentes suportes, como vídeos, áudios breves, imagens e textos. Ela alerta para o uso dessas ferramentas durante processos eleitorais em vários países, incluindo Brasil, Estados Unidos, Peru, Costa Rica e Colômbia. Para Cristina, essas estratégias colocam as democracias em situação de risco.

 

Segundo Cristina Tardáguila, o aumento da circulação de conteúdos manipulados por IA deixou de ser circunstancial e passou a compor permanentemente o ambiente digital. O número de checagens que identificaram esse tipo de desinformação cresceu de 160 em 2023 para 578 em 2025. Apenas até março deste ano, já foram registrados 205 casos.

 

“Eles vão receber uma enxurrada de conteúdos com IA e com grande chance de essas peças serem, na verdade, grandes falsidades”, acrescenta.


 

Desinformação em múltiplos idiomas

O estudo adotou critério linguístico para análise dos dados. Foram identificados 427 casos de notícias falsas produzidas por IA e deepfakes em inglês, 198 em espanhol e 111 em português. Entende-se por deepfake a substituição de rosto ou voz em áudio ou vídeo, criando simulações realistas.

 

Educação midiática defendida como estratégia

Cristina Tardáguila sustenta que a disseminação de práticas de educação midiática é crucial para enfrentar o avanço da desinformação por IA. Para ela, iniciativas de checagem em diversos países apoiam legislações que promovam e incentivem o entendimento da população acerca do que pode ser falso nas redes sociais. Cristina compara a educação midiática a uma vacina para preparar a sociedade contra conteúdos manipulados.

 

“A gente precisa que a vacina contra a desinformação, que é, na verdade, a informação de qualidade, chegue antes para que as pessoas possam estar preparadas e resilientes quando elas virem a mentira em formato de IA”, ressalta Cristina Tardáguila.


 

Segundo a pesquisadora, são necessárias políticas públicas para promover educação midiática e literacia – entendida como a capacidade de ler, escrever, interpretar e utilizar a linguagem de modo eficiente. Cristina defende que implementar esse tipo de formação nas escolas é urgente.

 

Além do papel do poder público, Cristina menciona que veículos de comunicação tradicionais podem colaborar, assim como as agências de checagem. Ressalta que o processo de verificação deve seguir parâmetros fixos de transparência e rigor. O levantamento considerou checagens publicadas e indexadas pela ferramenta Google Fact Check Explorer, que reúne informações refutadas e desmentidas gratuitamente.

 

“Não tenho a menor dúvida de que 2026 é um ano em que veremos cada vez mais IA. É bom que o brasileiro saiba disso, se prepare, esteja ativo e capaz de identificar a desinformação”, considerou.


 

A pesquisadora ainda destaca que qualquer cidadão pode recorrer à checagem sempre que houver dúvida sobre a autenticidade de alguma informação. Nesse contexto, a Agência Lupa oferece um curso gratuito para iniciantes em investigação digital.

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