Uma investigação conduzida pela Polícia Federal, denominada Operação Compliance Zero, revelou um esquema de fraudes financeiras envolvendo o Banco de Brasília (BRB) e o Banco Master, desencadeando uma crise de confiança na instituição pública do Distrito Federal que ainda afeta o dia a dia de cerca de 5 mil colaboradores do banco.
A partir do desdobramento da operação, os impactos recaem diretamente sobre funcionários concursados, terceirizados e estagiários, que relatam ambiente de trabalho mais tenso e carregado de incertezas quanto à estabilidade de seus empregos e à saúde financeira da instituição. O diretor do Sindicato dos Bancários do Distrito Federal, Daniel Oliveira, concursado do BRB desde 2008, afirma que tanto a sociedade quanto os trabalhadores estão arcando com o custo das decisões políticas que envolveram a tentativa de resgate do Banco Master.
Oliveira relata que, desde o início das investigações e desde o afastamento do então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, por decisão judicial em função de suspeitas de irregularidades e fraudes, têm-se multiplicado os relatos de clientes apreensivos nas agências, buscando informações sobre a situação do banco e a segurança de suas aplicações. Segundo ele, cabe aos funcionários o esforço de tranquilizar correntistas e convencê-los a manter seus investimentos mesmo diante de dúvidas e lacunas de informação.
O sindicalista destaca que muitos dos trabalhadores, especialmente analistas que atuaram nas negociações com o Banco Master, foram chamados a prestar depoimentos à Polícia Federal e auditores para esclarecer detalhes das transações financeiras que resultaram na aquisição de grandes volumes de créditos do banco do empresário Daniel Vorcaro, preso desde março, e na tentativa de compra de parte do Master pelo BRB por dois bilhões de reais – transação que acabou vetada pelo Banco Central antes mesmo da liquidação extrajudicial do Master e da deflagração da operação policial.
Oliveira aponta que o clima entre os funcionários oscila entre indignação e apatia, especialmente porque alguns deles já haviam apontado indícios de irregularidades nas transações tempo antes da divulgação pública dos fatos pela Polícia Federal. Segundo ele, o próprio sindicato, ao identificar a primeira operação de compra e venda de carteiras de créditos do Master, em novembro de 2024, encaminhou denúncia ao Banco Central e à Comissão de Valores Mobiliários por considerar prejudicial ao BRB.
Além dos trabalhadores ativos, a apreensão atinge cerca de 3 mil aposentados do BRB, que dependem da saúde financeira do banco para garantir seus planos de saúde e previdência complementar. A Previdência BRB assegura que mantém patrimônio superior a 4,39 bilhões de reais, totalmente segregado dos recursos das empresas patrocinadoras e do conglomerado BRB, e que a gestão dos fundos segue de modo autônomo e independente.
O BRB, com mais de seis décadas de atuação e administrando mais de 80 bilhões de reais em ativos de uma carteira superior a 10 milhões de clientes, sustenta possuir meios para superar eventuais prejuízos por meio de aportes de curto prazo. No entanto, Daniel Oliveira alerta que a incerteza e a demora em apresentar soluções podem gerar mais insegurança no mercado e entre investidores do que o próprio prejuízo financeiro.
A escassez de informações detalhadas levou a agência de classificação de risco Moody's a rebaixar a nota do BRB, citando a falta de clareza sobre os impactos concretos da aquisição de ativos do Master e a ausência de um plano efetivo de recuperação. Segundo o relatório da Moody's, o banco deverá receber uma injeção substancial de capital para evitar dificuldades no cumprimento de compromissos.
A comunicação institucional do BRB tem se limitado a avisos aos acionistas, comunicados ao mercado e relatórios obrigatórios. A orientação interna é para que dirigentes e demais colaboradores evitem declarações à imprensa. Paralelamente, no ambiente digital, foi lançada uma campanha que enfatiza a solidez e a estabilidade da instituição.
Na semana anterior, o novo presidente do BRB, Nelson de Souza, que substituiu Paulo Henrique Costa, optou por não comparecer à Comissão de Constituição e Justiça da Assembleia Legislativa do Distrito Federal para discutir a situação do banco, justificando a ausência pela necessidade de aguardar a conclusão das auditorias independentes contratadas para apurar os prejuízos e a análise do balanço contábil consolidado de 2025 pelos acionistas. A ausência foi criticada por parlamentares, que aprovaram convocação obrigatória do dirigente.
Para Daniel Oliveira, a repercussão negativa do caso na imprensa favorece um discurso de privatização, que poderia resultar na venda de ativos do BRB para grandes bancos privados a valores inferiores aos de mercado. Ele ressalta que o volume de reportagens alimenta a narrativa de solução de mercado, que, em sua visão, pode beneficiar instituições interessadas em adquirir as contas governamentais e empresariais hoje sob gestão do BRB.
Com a crise, projetos estratégicos do banco, como o plano de expansão para outras unidades da Federação, foram interrompidos. Isso afetou diretamente funcionários com expectativa de transferência para outros estados e cerca de 400 aprovados no concurso realizado em 2022, cuja convocação depende atualmente do desfecho da crise.
A expansão, marcada pelo crescimento da atuação em cidades fora do Distrito Federal e conquista da gestão de folhas de pagamento de servidores em capitais como João Pessoa, envolveu ainda a abertura de agências na Bahia, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, além do estabelecimento de correspondentes bancários em outros estados. O fortalecimento da marca incluiu investimentos em marketing, como o patrocínio de eventos esportivos e a parceria com o clube Flamengo, que resultou no lançamento do banco digital Nação BRB Fla, com quase 4 milhões de clientes.
Contudo, o projeto expansionista perdeu força ainda antes da tentativa de aquisição do Master ser divulgada em março de 2025, sendo congelado por tempo indeterminado após o início da operação policial.
Recentemente, a governadora Celina Leão, que assumiu o Executivo local em substituição a Ibaneis Rocha, declarou que a diretoria do BRB avalia fechar agências em outros estados. Segundo ela, independentemente de qual decisão seja tomada quanto ao fechamento de unidades, o objetivo é retomar o foco regional do banco e priorizar o atendimento e a oferta de crédito no Distrito Federal.
Celina Leão afirmou que o BRB possui condições de cumprir os compromissos firmados com o Banco Central e prometeu apresentar e executar uma solução para a crise no prazo de até 30 dias. No entanto, Daniel Oliveira criticou o cronograma, indicando que as dificuldades tendem a se agravar sem a rápida adoção de aportes financeiros e uma solução eficaz para restaurar a credibilidade da instituição.
O sindicalista defende que cabe ao GDF garantir os recursos necessários para a recuperação do banco, preservando o controle público distrital e o papel do BRB como fomentador da economia local e executor de programas sociais, como cartões Gás, Creche, Material Escolar e o Sistema de Bilhetagem Automática (BRB Mobilidade), presente em ônibus e no metrô do Distrito Federal.
Para o economista e professor da Universidade de Brasília, César Bergo, a falta de divulgação do balanço de 2025 e de demais documentos contábeis aprofunda a crise de confiança no BRB, expondo o banco a multas diárias de mais de cinquenta mil reais impostas pelo Banco Central e pela Comissão de Valores Mobiliários.
Bergo argumenta que a transparência é essencial para o setor financeiro e que a insegurança causada pela ausência de informações atinge tanto correntistas quanto investidores, podendo repercutir em todo o sistema bancário. Ele considera inaceitável que um banco deixe de apresentar o balanço anual e critique a demora na realização das assembleias gerais para análise das contas de 2025 e eleição dos novos membros dos conselhos, prevista apenas para o dia 30 deste mês.
“O BRB foi alvo de um golpe que lançou o banco em uma crise não só financeira, mas, principalmente, de reputação. E nem os nomes dos dirigentes que estão falando pelo banco foram aprovados pela assembleia? A crise é de confiança e [fontes do GDF] divulgam à imprensa números que não batem, contas que não fecham, de uma maneira que nenhum acionista, economista ou contador entende?”
César Bergo enxerga quatro caminhos possíveis para enfrentar a situação do BRB. A principal alternativa, em sua avaliação, seria a capitalização do banco a partir de aporte financeiro dos sócios, especialmente do GDF, utilizando recursos públicos. Outra possibilidade seria a obtenção de empréstimos junto ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC) ou a outros bancos, o que permitiria reforçar o capital do BRB, mas com o ônus de juros elevados.
Bergo também aponta a federalização, com o governo federal absorvendo o BRB por meio de uma instituição pública como Banco do Brasil ou Caixa, a exemplo do que ocorreu com o Banco do Estado de Santa Catarina (Besc) em 2008, além da hipótese de privatização.
“A federalização eu não creio que o Palácio do Planalto queira fazer, pois implicaria levar para o âmbito federal um problema que é do GDF. De qualquer forma, seja lá qual for a solução, duas coisas são certas: uma é que salvar o BRB é melhor que deixá-lo quebrar. Outra, é que qualquer que seja a decisão, ela deve ser anunciada rapidamente”, finalizou Bergo.
O BRB não se manifestou sobre o caso até a publicação desta reportagem. Também não houve retorno da defesa de Paulo Henrique Costa. Em nota, a governadora Celina Leão afirmou que os fatos relacionados à prisão preventiva do ex-presidente do BRB estão sob análise do Poder Judiciário, responsável pela apuração e julgamento. Ela acrescentou que todas as medidas cabíveis foram adotadas pelo Executivo local, em colaboração com as autoridades competentes.